O Computador Simbiótico e o Fim da Pobreza

Ao eliminar o mouse que ela tornou famoso e escondendo o teclado, a Apple nos trouxe para a era do real computador pessoal. Vamos chamá-lo de Computador Simbiótico pela sua simbiose com nós humanos... A Apple nos deu a nova tecnologia, mas foi a Google que a direcionou no sentido do modelo de fonte aberta, rapidamente conquistando fatias significantes do mercado enquanto entregando aplicativos gratuitos ou de baixo custo com uma solução de gestão tecnológica baseada em servidores centralizados, assim como eu havia sugerido para as redes de telecentros... O modelo de acesso compartilhado dos telecentros precisa ser aperfeiçoado para aproveitar da realização do Computador Simbiótico. A inclusão digital agora pode ser entendida como ocorrendo em dois estágios distintos: alfabetização digital e capacitação profissional. A primeira a ser alcançada com a ajuda do Computador Simbiótico (SC), e a segunda com o Computador Pessoal (PC)...

Marco Figueiredo - 5 de Janeiro de 2012

Durante a última década eu tenho participado ativamente na busca de modelos de difusão das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) para ajudar a aliviar e erradicar a pobreza no mundo. O raciocínio é simples: se as pessoas tiverem acesso à informação através da Internet, elas têm uma maior chance de sair da miséria, bem como superar a opressão e a injustiça. Embora existam muitos fatores necessários para superar a pobreza, o acesso ao ciberespaço é o facilitador principal. Como engenheiro de computação e pesquisador da Nasa e empreendedor tecnológico, eu estou familiarizado com o processo de criação e comercialização de tecnologia, mas foi necessário cerca de uma década de empreendedorismo social para aprender o que muitos sociólogos me disseram de início: o que importa são as pessoas e não as ferramentas!

Eu comecei a minha busca conversando com os especialistas na redução da pobreza em Washington e Nova York que servem à ONU, oo Banco Mundial, e à várias outras agências internacionais de desenvolvimento. Eu finalmente me mudei para uma das zonas rurais mais pobres do Brasil para tentar aprender com a população local e ganhar conhecimento direto da dinâmica sócio-econômica que perpetua os padrões de longos tempos de exclusão e pobreza. Três anos mais tarde voltei para os EUA após ter lançado a ONG Gemas da Terra, e ajudei a criar o Centro de Informática Comunitária da Universidade Loyola Maryland.

Ao longo da minha jornada, eu logo descobri que as TIC não estavam prontas para adoção generalizada. O computador pessoal (PC – sigla em inglês) não é tão pessoal assim, mas mais uma ferramenta de automação de negócios. Tentar envolver aqueles que são analfabetos digitais tem sido uma grande luta. Por outro lado, tentar convencer as pessoas a investirem na melhoria das tecnologias para servir aos pobres tem sido ainda mais difícil. Eu costumo ouvir que "os pobres não podem pagar por novas tecnologias," e que "eles devem apenas esperar para que elas cheguem ao preço de seu alcance." O pressuposto é que somente os ricos podem pagar pelo desenvolvimento das TIC.

A minha solução foi concentrar no modelo de acesso compartilhado como forma de reduzir os custos de difusão de tecnologia e facilitar a aprendizagem pessoa-à-pessoa (peer-to-peer). Eu cheguei até a sugerir em 2002 que o governo brasileiro criasse uma rede de 100 mil telecentros comunitários para o Brasil tornar-se o primeiro país a garantir o acesso de banda larga aos seus 180 milhões de habitantes. O governo acabou adotando a idéia em 2010 no que ficou conhecido como o Plano Nacional de Banda Larga. Não está claro ainda se a Presidente Dilma vai continuar o plano do Presidente Lula de finalizar a rede de telecentros até 2014. A minha definição de telecentro, porém, não se limita a espaços públicos geridos por governos e ONGs, mas também espaços privados como cibercafés e lan-houses. A Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital (ABCID) estima em cerca de 108.000 o número de lan-houses no Brasil atendendo em média 300 usuários por mês cada uma, sendo responsáveis pelo acesso de 32 milhões de pessoas. A estimativa de 100.000 telecentros comunitários para cobrir toda a população brasileira parte da experiência de que um telecentro comunitário maduro atende em média 2.000 pessoas por mês. De alguma forma a atuação das lan-houses deve ser incorporada na solução completa de acesso universal à Internet de banda larga.

Porém, o modelo de acesso compartilhado necessitava de alguns ajustes tecnológicos para ser bem sucedido. A primeira proposta foi simplificar a interface gráfica do PC através de uma abordagem em camadas. Usuários novatos veriam menos opções no início, começando com as aplicações que lhes dariam um benefício direto. Ao se tornarem mais familiares e satisfeitos poderiam revelar camadas mais profundas de complexidade. Um dos primeiros aplicativos disponíveis seria o de comunicação com voz e vídeo, o qual lhes permitiria falar e ver parentes distantes a baixo custo ou mesmo gratuitamente. Isso promoveria a difusão e os motivaria a voltar para obter experiências mais significativas.

Outro dos primeiros aplicativos que o usuário iniciante veria seria uma divertida ferramenta de aprendizagem do uso do mouse, pois observei que o dispositivo de mouse é outro fator que dificulta a aceitação do PC entre os analfabetos digitais, principalmente as pessoas da melhor idade. Todos os aplicativos seriam simplificados para permitir um clique-de-mouse para navegar e um mínimo ou nenhum uso do teclado - uma ferramenta terrivelmente complexa. Eu sugeri que o teclado ficasse escondido em uma plataforma deslizante colocada debaixo da mesa.

Outra melhoria seria na gestão da tecnologia. Eu propus uma abordagem baseada em computação em nuvem na qual o sistema operacional em execução no computador do telecentro tem sua configuração determinada por um servidor central em algum lugar na Internet. O usuário poderia solicitar a instalação de um novo aplicativo, mas o controle de configuração ficaria no servidor central, que também poderia fazer uma atualização do sistema operacional. O usuário poderia manter seus dados na nuvem ou em dispositivos de memória flash. Uma arquitetura leve de PC usaria somente partes imóveis e seria de custo acessível para ser substituído em sua totalidade quando defeituoso. Isso pode não parecer um conceito inovador atualmente, mas foi quando desenvolvi um protótipo para um empreendimento comercial de franquias de telecentros.

O uso de Software Livre e de Código Aberto (FOSS) era uma chave para o sucesso deste modelo. Software proprietário é muito caro para servir aos pobres. O seu preço teria de descer uma ordem de grandeza para ser acessível. Qualquer coisa acima de 10 reais é caro demais; o preço ideal deve ser cerca de 1 real, que é facilmente justificado pelo aumento no tamanho do mercado através da inclusão digital generalizada. Além disso, o modelo de software proprietário do mundo PC requer contínuas atualizações pagas ou exclusão. Ele só funciona quando há um benefício financeiro direto derivado da sua utilização, como no caso da realização de um trabalho onde a experiência com o software é necessária.

O avanço tecnológico que eu estava procurando apareceu pela primeira vez no mercado de telefonia móvel. Foi Steve Jobs que mais uma vez integrou um conjunto de tecnologias novas e usou o poder de compra da Apple para trazer ao mercado a preços acessíveis os computadores de tela sensível a toque. Ao eliminar o mouse que ela tornou famoso e escondendo o teclado, a Apple nos trouxe à era do real computador pessoal. Vamos chamá-lo de Computador Simbiótico (SC - sigla em inglês) pela sua simbiose com nós seres humanos. O Computador Simbiótico muda a nossa vida pessoal. Se você já levou um smartfone para a cama você sabe o que quero dizer. Eu posso finalmente admitir que os sociólogos estavam certos. É realmente sobre as pessoas e não as ferramentas. Mas e se a ferramenta está incorporada nas pessoas, podemos fazer uma distinção? Neste ponto, eu digo que algumas das ferramentas de TIC estão se tornando emocionalmente incorporadas nas pessoas. No futuro estas ferramentas poderão estar fisicamente incorporadas em nós.

Diz-se que a planilha eletrônica foi o "killer app" que fez o PC útil. Faz sentido se você olhar o PC por aquilo que ele é: ferramenta de automação de negócios. O "killer app" no mundo SC é o telefone. Não admira que o primeiro foi chamado de iPhone. Mas ao contrário da planilha eletrônica, que foi uma inovação em si, o telefone já existia muito antes do SC surgir e rapidamente se tornou mais uma entre as centenas de milhares de aplicativos realmente pessoais. O SC é essencial para que os quatro bilhões de pessoas que são excluídos digitais possam aderir à era digital. É a ferramenta de alfabetização digital definitiva. E se a tela do SC smartfone é muito pequena, há o SC tablet ou o SC televisão. O SC envolve todos os aspectos de nossas vidas pessoais e não apenas aspectos profissionais como o PC fez na maioria dos casos. O Computador Simbiótico é, portanto, uma tecnologia inovadora pavimentando o caminho para o fim da pobreza.

A Apple nos deu a nova tecnologia, mas foi a Google que a dirigiu para um modelo de fonte aberta, rapidamente ganhando mercado com a plataforma Android enquanto oferecendo aplicativos de baixo custo ou mesmo gratuitos com uma solução de gerenciamento de tecnologia baseada em servidor central, assim como eu havia sugerido para as redes de telecentro. Está morto, portanto, o modelo de acesso compartilhado? O governo brasileiro deve cancelar o plano da rede de 100.000 telecentros comunitários? Não tão rápido assim, pois ainda existem desafios na adoção do SC. Os melhores e mais utéis SCs ainda são inacessíveis para os pobres; na realidade isto está aprofundando a exclusão digital, pois são oferecidas aos pobres soluções ineficazes. Eu recentemente testei um SC tablet de baixo custo e a experiência foi frustrante até mesmo para minha filha de quatro anos de idade que ficou desencorajada pela péssima resposta da tela sensível ao toque e a lentidão do processamento de aplicativos. Em contraste, nós sentimos uma grande satisfação quando testamos um SC smartfone com um processador duplo de 1GHz, o qual é mais rápido que qualquer computador de satélites da NASA atualmente no espaço. Será perfeito quando ele for vendido por US$60 dólares ao invés dos atuais US$600 dólares, e os serviços de acesso banda larga se tornarem acessíveis para a maioria das pessoas.

O modelo de acesso compartilhado precisa ser atualizado para aproveitar a realização do computador simbiótico. A inclusão digital pode agora ser entendida como ocorrendo em duas etapas distintas: a alfabetização digital e a capacitação profissional. A primeira deve ser realizada com a ajuda do computador simbiótico, a segunda com o computador pessoal. O modelo de acesso compartilhado precisa ser ajustado para servir como uma ponte entre as duas fases. Ele permanece como a melhor maneira de reduzir custos e acelerar a difusão de tecnologia em prol da erradicação da pobreza. O conceito comprovado de software livre e de fonte aberta, entregues sob controle de um servidor central para PCs de baixo custo e baixa manutenção, deve ser adotado pelas redes de telecentro. Software proprietário com preço acessível ou disponível de forma gratuita com propagandas podem funcionar tão bem no mundo PC como no mundo SC. A demanda por interfaces de usuário simplificadas para o PC não é tão importante como antes, pois os usuários já estarão familiarizados com os SCs e mais dispostos a aprender um ambiente de escritório automatizado para ajudar na obtenção de um emprego ou gestão de uma empresa na era digital.

Telecentros devem ser centros de conexão Wi-Fi para SCs, ligando-os à Internet e fornecendo um servidor comunitário de mídia para facilitar a criação e difusão de conteúdos locais, além de prover serviços de comunicação local por áudio e vídeo por um preço acessível. Eles também podem fornecer conteúdo pré-armazenado da Internet, como a Wikipedia, para reduzir os requisitos de largura de banda e os custos de conexão à Internet, enquanto continuando a proporcionar o acesso a recursos mais caros como impressoras, scanners, copiadoras, projetores de vídeo e ferramentas de produção de mídia. Como um modelo de negócio, a versão popular da bem sucedida Apple Store ainda está para ser implementada no mundo Android. Redes de telecentro podem utilizar esta abordagem.

Em última análise, o futuro está reservado para a banda larga gigabit de custo acessível através de fibra ótica ligada às casas, e em tal ponto o modelo de acesso compartilhado pode não ser mais útil, mas ele pode definitivamente acelerar o processo de adoção. Quanto mais rápido chegarmos lá, melhor estaremos. A redução da pobreza pode aumentar nossas chances para a paz mundial, e liberar tempo e recursos que podemos investir na evolução espiritual. Durante a jornada em direção ao fim da pobreza, os telecentros continuarão a servir suas comunidades como centros de tecnologias de informação e comunicação. O modelo de aprendizado pessoa a pessoa do telecentro aumenta a capacidade de uma comunidade para forjar um caminho socialmente justo e progressista no sentido do desenvolvimento ambientalmente sustentável com melhores condições de vida para todos. O Computador Simbiótico marca um passo revolucionário na utilização das TIC para acabar com a pobreza. Ele muda também o pressuposto de que só os ricos podem pagar por novas tecnologias. O tamanho do mercado de SC vai exigir inovações orientadas para as necessidades dos pobres. Quanto mais rápido um produto chegar a este mercado, mais bem sucedido serão seus criadores.

Concordo que é realmente sobre as pessoas. Que Deus continue a nos abençoar!